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17/03/17 10:30

Atuação de Bauraqui valoriza musical que repõe Cartola na avenida popular

O musical sobre o cantor, compositor e músico carioca Angenor de Oliveira

O musical sobre o cantor, compositor e músico carioca Angenor de Oliveira (11 de outubro de 1908 – 30 de novembro de 1980), o Cartola, chega esta semana aos palcos do Rio de Janeiro (RJ), cidade natal do artista, após cumprir em 2016 bem-sucedida temporada paulista, que rendeu justas láureas e prêmios ao ator Flávio Bauraqui, cuja irretocável interpretação do sambista valoriza o espetáculo em cartaz no Teatro Carlos Gomes de quinta-feira a domingo. O texto do dramaturgo e jornalista Artur Xexéo conta a vida de Cartola com ternura e certa emoção, sobretudo no segundo ato, pautado pela união do artista com Euzébia Silva do Nascimento, a Dona Zica (1913 –  2003), retratada com afetuosidade em cena na pele da atriz e cantora Virgínia Rosa.

 

A (boa) ideia do autor foi centrar a dramaturgia de Cartola –  O mundo é um moinho em dois tempos narrativos. No tempo presente, a fictícia escola de samba Arengueiros de Curicica – cujo nome alude ao Bloco dos Arengueiros, formado por Cartola nos 1920 e embrião da Estação Primeira de Mangueira –  arquiteta enredo sobre Cartola. É o pretexto para que, em tom narrativo, o carnavalesco da agremiação, Luizinho das Candongas (Hugo Germano, ator de presença vivaz), despeje informações sobre acontecimentos relevantes da vida e obra de Cartola. As subtramas que envolvem os componentes da escola são cortadas por números musicais e por cenas que, em tempos idos, reconstituem momentos cruciais da trajetória do artista projetado nos anos 1930, esquecido nos anos 1940 e revalorizado nos anos 1960.

 

Nas primeiras cenas do primeiro ato, impera um tom didático em diálogos que roçam a artificialidade, caso da cena em que Deolinda (Adriana Lessa), primeiro grande amor de Cartola, questiona o companheiro sobre a origem do apelido Cartola. À medida em que a ação avança cronologicamente, a dramaturgia dribla o didatismo e monta bom enredo sobre a história (repleta de lances folhetinescos) de Cartola. Auxiliado por caracterização exemplar, Bauraqui soa convincente como o protagonista desse enredo, desde a fase temperamental da juventude até o inverno do tempo de Cartola, que sai de cena em 1980 em ato derradeiro que o texto omite (Bauraqui já sido Cartola em 2004, em outro musical sobre o compositor).

 

O diretor Roberto Lage conduz a encenação à moda brasileira, procurando extrair humor das personagens e situações que envolvem a agremiação Arengueiros do Curicica. Nesse desfile quase alegórico que ecoa códigos do teatro de revista, o destaque é Silvetty Montilla, drag queen que, na pele de Aurélia Pitangas, cria imediata empatia com o público nos monólogos em que se dirige diretamente à plateia.

 

Entre doses de humor e ternura, a música de Cartola paira soberana em cena, embalada com tradicional reverência aos padrões rítmicos do samba por Rildo Hora, diretor musical e arranjador do espetáculo. Dentro desse padrão que prioriza a percussão sem omitir instrumentos de harmonia como o piano, Rildo ousa no melhor número do musical, Fiz por você o que pude, belíssimo samba composto por Cartola como sentido recado à Estação Primeira de Mangueira por ter tido samba-enredo feito com o parceiro e amigo fiel Carlos Moreira de Castro (1902 – 1904), o Carlos Cachaça, derrotado (injustamente) na escolha do tema do Carnaval de 1961. Com interpretação melancólica de Bauraqui, o samba – lançado em disco em 1967 pela cantora Elizeth Cardoso (1920 – 1990) – é amplificado pelo coro do elenco em espécie de lamento que faz do arranjo vocal um atestado do talento de Rildo Hora como arranjador. O número embute citação instrumental do samba Exaltação à Mangueira (Enéas da Silva e Aloísio Augusto da Costa, 1955).

 

Outro ponto alto do desfile musical é o canto de Autonomia (1977) por Augusto Pompeo, intérprete de Sebastião, pai de Cartola, personagem-chave na abertura e no desfecho do enredo. Pompeo canta Autonomia com o sentimento dos calejados sambistas de morro, habituados a fazer interpretações em que o pleno entendimento do que cantam supre qualquer eventual deficiência vocal. O número em que Bauraqui dá voz a Acontece (1972), em cena que reconstitui a gravação do tardio primeiro álbum solo de Cartola em 1974, também merece menção honrosa. A propósito, o texto peca ao abordar superficialmente os últimos anos de vida de Cartola e ao omitir o nome de Beth Carvalho, cantora fundamental para a popularização de obras-primas como As rosas não falam (1976) – música interpretada por Alcione na estreia carioca do musical (cada apresentação terá um convidado especial).

 

Contudo, Cartola – O mundo é um moinho gira geralmente sedutor em cena, arrematando a história em tom carnavalizante com a cantoria coletiva do inédito samba-enredo Mestre Cartola, composto por Arlindo Cruz e Igor Leal para o espetáculo encenado com pesquisa de Nilcemar Nogueira, neta de Dona Zica. Sim, deve haver o perdão para qualquer eventual cena mais didática diante do fabuloso enredo (re)contado em cena por 18 atores sobre a trajetória improvável de Angenor de Oliveira, o divino Cartola de tempos idos, ora reposto na avenida neste bom musical de tom popular. (Cotação: * * * 1/2)


Serviço do musical:
Título: Cartola – O mundo é um moinho
Idealização: Jô Santana
Texto: Artur Xexéo
Direção: Roberto Lage
Direção musical e arranjos: Rildo Hora
Elenco: Flávio Bauraqui (Cartola), Virgínia Rosa (Dona Zica), Hugo Germano (Luizinho das Candongas), Adriana Lessa (Deolinda / Soninha), Silvety Montilla (Aurélia Pitangas), Augusto Pompeo (Sebastião) e Eduardo Silva (Carlos Cachaça), entre outros atores.
Espetáculo em cartaz no Teatro Carlos Gomes, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), de quinta-feira a domingo. De quinta à sábado, às 19h. Domingo, às 17h. Até 28 de junho de 2017.

 

(Crédito da imagem: Flávio Bauraqui como Cartola em foto de divulgação)

FONTE: G1 Música


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